Módulo 00 · Antes de começar
Seis esteiras por onde passa cada boleta
Todo produto de tesouraria vive ao mesmo tempo em seis processos: operacional, contábil, risco de mercado, risco de crédito, gerencial (P&L) e compliance. Quem entende as seis consegue aprovar, estruturar e defender um produto novo em qualquer banco.
O formato de aprendizagem foi preservado. Mantive pré-testes, explicações curtas, exemplos resolvidos, testes de recuperação, “Explique para o comitê”, caso integrado, flashcards espaçados e simulado intercalado. As caixas novas conectam os pontos específicos dos sete áudios ao conteúdo existente e sinalizam onde a fala original é uma simplificação ou depende da política de cada banco.
O escopo é deliberadamente prático. As seis esteiras são o núcleo para avaliar produtos bancários, não uma lista de todos os processos existentes no banco. A orientação original dá prioridade à operacional (registro, liquidação e custódia), à contábil/regulatória e à de risco de mercado; a última pode ser decisiva para aprovar ou vetar um produto quando não há modelo ou hedge viável.
O método deste curso
A pesquisa sobre aprendizagem é bem consistente sobre o que funciona para conhecimento técnico denso como este. A revisão de Dunlosky et al. (2013), que avaliou dez técnicas de estudo, classificou como de alta utilidade apenas duas: testar-se (prática de recuperação) e espaçar as revisões. Reler e grifar ficaram como de baixa utilidade. O curso foi montado em cima disso:
| Técnica | Por que funciona | Onde está no curso |
|---|---|---|
| Pré-teste | Tentar responder antes de estudar, mesmo errando, prepara a memória para reter a resposta certa (efeito do pré-teste). | Bloco tracejado no início de cada esteira |
| Prática de recuperação | Puxar a informação da memória fortalece o traço muito mais do que reler. | Teste de cada módulo, simulado final |
| Repetição espaçada | Revisar no momento em que você está quase esquecendo maximiza a retenção por minuto estudado. | Flashcards com caixas de Leitner (1, 3, 7 e 14 dias) |
| Exemplos resolvidos | Para iniciantes num assunto, ver a conta feita passo a passo reduz carga cognitiva e acelera a construção do modelo mental. | Caixas “Exemplo resolvido” e calculadoras |
| Autoexplicação | Explicar com as próprias palavras (técnica de Feynman) revela as lacunas que a leitura esconde. | “Explique para o comitê” ao fim de cada módulo |
| Intercalação | Misturar tipos de problema treina a parte difícil: reconhecer qual conceito se aplica. | Caso integrado e simulado misturam as seis esteiras |
Como usar, na prática
- Faça o pré-teste sem consultar nada. Errar é o objetivo.
- Leia o módulo uma vez, com atenção nos exemplos resolvidos. Mexa nas calculadoras mudando um número por vez.
- Escreva a resposta do “Explique para o comitê” antes de abrir a resposta-modelo.
- Faça o teste do módulo. Acertou tudo? Marque o módulo como concluído.
- Todo dia, 10–15 minutos de flashcards. O sistema mostra só os cartões que vencem hoje.
- Depois das seis esteiras, faça o caso integrado e o simulado.
Plano sugerido de 14 dias
Cerca de 1h por dia. As revisões espaçadas já estão embutidas.
A espinha dorsal reúne os sete áudios sobre as seis esteiras de produtos de tesouraria e os quatro áudios de fundamentos econômicos, linhas de negócio, atores de mercado e regulação. As lacunas foram complementadas com contexto regulatório e prática de mercado. As explicações dos áudios são a base conceitual, não substituem políticas internas nem parecer jurídico: números de normas, enquadramentos e alíquotas devem ser conferidos na versão vigente antes de uso profissional.
Módulo 01 · Fundamentos
O mapa: tesouraria, mercado e reguladores
Antes das esteiras, você precisa saber quem faz o quê dentro do banco, onde as operações são registradas e quem escreve as regras.
Pré-teste. Responda sem consultar. Errar aqui ajuda a fixar depois.
Por que existe um banco?
A explicação econômica apresentada no áudio começa com uma pergunta: poupadores e empresas poderiam emprestar e tomar dinheiro diretamente? Em princípio, sim. O banco existe, entre outras razões, porque reduz o custo de procura: concentra recursos de muitos poupadores e oferece um ponto de acesso a quem precisa de financiamento ou de uma transação financeira.
Encontram um lugar centralizado para guardar ou aplicar recursos, sem precisar localizar individualmente cada tomador.
Agrega a captação e canaliza recursos para crédito, financiamento e serviços financeiros, administrando riscos e balanço.
Acessam financiamento e produtos como derivativos sem ter de procurar vários poupadores ou gestores diretamente.
O áudio destaca uma vantagem competitiva de grandes bancos de varejo: uma base ampla de depósitos pode proporcionar funding relativamente barato. Isso pode sustentar a oferta de crédito e de produtos de Tesouraria. Não significa, porém, que todo banco capte sempre abaixo da taxa livre de risco; o custo efetivo depende da composição do funding, do prazo, da liquidez e das condições de mercado.
Se uma empresa consegue emitir uma debênture diretamente no mercado, por que ainda pode escolher tomar crédito ou contratar um derivativo com um banco? Considere custo de procura, acesso, customização, preço, garantias e risco de contraparte.
Front, middle e back office
| Camada | Quem | O que faz |
|---|---|---|
| Front office | Trading (mesas de juros, câmbio, commodities, crédito), Sales/Distribuição, Bankers (Corporate/IB), ALM | Precifica, fecha a operação e digita a boleta (o ticket da operação). Responde pelo P&L. |
| Middle office | Risco de mercado, risco de crédito, controle de P&L (Product Control / Finance gerencial), validação de modelos | Mede, controla limites, valida preços (IPV) e apura resultado de forma independente. |
| Back office | Operações (registro, liquidação, custódia), contabilidade, regulatório, fiscal | Confirma, registra na B3/Selic, liquida, concilia e contabiliza. |
| Controle | Compliance, PLD, auditoria interna | Verifica se a operação podia ter sido feita e se foi feita de forma justa. |
Essa separação é o modelo das três linhas: a 1ª linha (negócio) assume e gere o risco; a 2ª (risco e compliance) define limites e monitora; a 3ª (auditoria interna) avalia se as duas primeiras funcionam. A base regulatória é a Res. CMN 4.557/2017 (estrutura de gerenciamento de riscos e de capital), a Res. CMN 4.968/2021 (controles internos) e a Res. CMN 4.595/2017 (política de conformidade).
O ciclo de vida de uma operação
Cada boleta dispara as seis esteiras. Elas deveriam rodar de forma independente e chegar ao mesmo número, mas na prática compartilham dados e às vezes divergem. Achar e explicar essas divergências é boa parte do trabalho.
Na hora de lançar um produto novo, cada esteira tem um peso diferente. A operacional e a contábil tendem a ser replicáveis entre produtos parecidos. A esteira de risco de mercado é a que mais frequentemente derruba um produto: se a mesa não consegue fazer o hedge, ou o banco não tem modelo para medir o risco, o produto não para de pé.
Linhas de negócio dentro de um banco
| Linha | Função ilustrativa |
|---|---|
| Banking de varejo | Captação de depósitos e concessão de crédito a clientes. |
| Wealth / planejamento | Assessoria financeira e serviços de gestão patrimonial. |
| Intermediação | Conectar compradores e vendedores; em conglomerados, essa função costuma estar associada também à corretora. |
| Banco de investimento / estruturação | Estruturar operações e produtos para distribuição no mercado, inclusive para gestores de recursos. |
| Trade Finance | Financiamento vinculado a uma transação comercial subjacente, como antecipação de recebíveis ou financiamento ligado à exportação. |
| Tesouraria | Dar aos clientes acesso a mercados e soluções de hedge, conversão de moedas e aplicação de caixa; gerir também os riscos e posições do banco. |
Exemplo de Trade Finance: uma empresa exportadora já tem um contrato de exportação e usa esse fluxo como base para obter financiamento. Outro exemplo é antecipar um recebível de cartão originado por uma venda já realizada. O vínculo com uma transação comercial existente é a característica central destacada no áudio.
NDF bilateral ou futuro em bolsa?
O áudio usa o hedge de dólar para ilustrar uma decisão econômica. Um futuro listado é padronizado e negociado em bolsa; uma NDF bilateral pode ser ajustada ao prazo e ao valor da exposição específica do cliente. Em futuros, a margem e os ajustes podem exigir que o cliente imobilize liquidez. Na NDF, o cliente pode evitar a mesma rotina de margem diretamente na bolsa, mas passa a contratar bilateralmente com o banco e paga o preço negociado, que inclui spread e reflete os riscos e custos assumidos pelo banco.
A comparação depende de prazo, tamanho, liquidez, preço total, margem, custo de funding, risco de contraparte e capacidade de hedge do banco. A NDF não é automaticamente mais barata: ela pode ser economicamente conveniente quando a customização e a gestão de margem compensam o spread.
A infraestrutura do mercado brasileiro
| Sistema | Quem opera | O que passa por lá |
|---|---|---|
| STR (Sistema de Transferência de Reservas) | Banco Central | Transferências entre contas de reservas bancárias, em tempo real e uma a uma (liquidação bruta em tempo real, LBTR). Coração do SPB. |
| Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) | Banco Central | Registro, custódia e liquidação de títulos públicos federais (LFT, LTN, NTN-B, NTN-F) e compromissadas com TPF. |
| B3 Bolsa (Câmara B3) | B3, como contraparte central | Ações, futuros (DI1, DOL, DAP, índice), opções listadas. A câmara garante a liquidação e cobra margem e ajuste diário. |
| B3 Balcão (ex-Cetip) | B3 | Registro de CDB, LCI, LCA, LF, debêntures, CRI/CRA, derivativos de balcão (swaps, NDF, opções flexíveis, termos). |
| Câmbio | Banco Central / B3 | Registro das operações de câmbio no sistema do BC; interbancário pode liquidar pela câmara de câmbio da B3. |
Taxas e curvas que você vai ouvir todo dia
- Selic meta: definida pelo Copom. Selic over: taxa média das compromissadas de um dia lastreadas em título público no Selic.
- CDI / Taxa DI: taxa média dos depósitos interfinanceiros de um dia, divulgada pela B3. É o “custo do dinheiro” de referência dos bancos e anda colada na Selic over.
- Base 252: no Brasil, juros pré e DI são capitalizados por dias úteis: fator = (1 + taxa)du/252.
- Curva pré (Pré × DI): extraída dos futuros DI1 da B3. Cupom de IPCA: dos futuros DAP e das NTN-B. Cupom cambial: juro em dólar no Brasil, dos contratos DDI/FRC.
- Um ativo atrelado ao CDI tem duration próxima de zero: ele reajusta todo dia à taxa do dia. Por isso bancos brasileiros trazem quase tudo para CDI via swap e só ficam “direcionais” por decisão explícita da mesa.
Quem escreve as regras
| Órgão | Papel | Atos que você vai ler |
|---|---|---|
| CMN (Conselho Monetário Nacional) | Órgão normativo máximo do sistema financeiro | Resoluções CMN (ex.: 4.557, 4.966) |
| BCB (Banco Central) | Regula e supervisiona bancos, câmbio, pagamentos; executa a política monetária | Resoluções BCB, Circulares e Cartas-Circulares antigas, Instruções Normativas |
| CVM | Mercado de valores mobiliários: emissores, intermediários, fundos, abuso de mercado | Resoluções CVM (ex.: 30 suitability, 35 intermediários, 62 abuso de mercado) |
| B3 | Bolsa, balcão e câmara; autorregula via BSM | Manuais e regulamentos de operação |
| Anbima | Autorregulação e preços de referência | Códigos de autorregulação; taxas indicativas de títulos e debêntures |
| FGC | Fundo Garantidor de Créditos | Garante até R$ 250 mil por CPF/CNPJ por instituição (teto de R$ 1 milhão a cada 4 anos para PF), Res. CMN 4.222/2013 |
| Receita Federal | Tributação | IR, IOF, PIS/Cofins; o banco é responsável por reter e recolher na fonte |
Bacen e CVM: mandatos diferentes
| Instituição | Ênfase descrita nos áudios | Perguntas típicas |
|---|---|---|
| Banco Central (BCB) | Saúde e estabilidade do sistema financeiro, prudência bancária, gestão de riscos, capital, contabilização e reportes prudenciais. | O banco mede adequadamente suas exposições? Está refletindo posições e riscos corretamente? Cumpre os requisitos prudenciais? |
| CVM | Mercado de valores mobiliários e proteção do investidor, incluindo distribuição, intermediação, suitability e conduta. | O produto foi distribuído adequadamente? O cliente recebeu informações e avisos de risco? A conduta de mercado foi apropriada? |
O áudio chama atenção para a Lei 6.385/1976 e para a diferença entre a definição legal brasileira de valor mobiliário e o uso do Howey Test nos Estados Unidos. O Howey Test é apresentado como uma referência analítica baseada em elementos como investimento, expectativa de lucro, empreendimento comum e dependência dos esforços de terceiros; não deve ser tratado como substituto automático da lei brasileira.
A transcrição apresenta uma interpretação crítica do enquadramento brasileiro de derivativos como valores mobiliários e da diferença em relação ao modelo norte-americano. Esse argumento é útil para entender por que existem particularidades regulatórias, mas a aplicação concreta depende da legislação e das normas vigentes. Não use o resumo como parecer jurídico nem como afirmação de que todos os instrumentos recebem o mesmo tratamento.
Basileia em cinco linhas
- Patrimônio de Referência (PR) = Nível I (Capital Principal + Capital Complementar) + Nível II. Res. CMN 4.955/2021.
- RWA (ativos ponderados pelo risco) = RWA de crédito (RWACPAD) + mercado (RWAMPAD) + operacional (RWAOPAD).
- Mínimos sobre o RWA: Capital Principal 4,5%, Nível I 6%, PR 8%, mais o Adicional de Capital Principal (ACP): conservação 2,5%, sistêmico até 1% para bancos sistemicamente importantes e contracíclico. Res. CMN 4.958/2021.
- Bancos são divididos em segmentos S1 a S5 pelo porte (Res. CMN 4.553/2017). Os grandes bancos de varejo são S1 e seguem a regra completa.
- Liquidez: LCR (estoque de ativos líquidos para 30 dias de estresse ≥ 100%) e NSFR (funding estável ≥ 100%).
Por que isso importa para produtos: cada operação consome capital. Um produto rentável que consome muito RWA pode ter retorno sobre capital ruim.
Teste do módulo
Explique para o comitê
Em 4–5 linhas: por que um banco brasileiro que capta em CDB pré-fixado normalmente faz um swap para CDI?
Ver resposta-modelo
O CDB pré cria um passivo com taxa fixa: se os juros caírem, o banco continua pagando a taxa alta contratada, ou seja, perde valor econômico. Como o funding “natural” e a maior parte dos ativos do banco giram a CDI (duration perto de zero), a tesouraria troca o pré por CDI com um swap (ou vende/compra DI1 futuro). Assim, o resultado vira spread sobre CDI e o risco direcional de juros só existe se a mesa decidir mantê-lo, dentro do limite de DV01.
Módulo 02 · Fundamentos
Catálogo de produtos de tesouraria
A nomenclatura que aparece em boleta, balanço e comitê. Para cada produto, o que importa é o lado do balanço, onde é registrado, se tem FGC, compulsório ou direcionamento, e que risco cria.
Pré-teste. Chute com convicção.
O que a Tesouraria entrega ao cliente?
O racional descrito no áudio é dar acesso a mercados e transformar exposições financeiras em soluções utilizáveis pelo cliente: fazer hedge de uma obrigação, converter um recebimento em moeda estrangeira, aplicar caixa ou acessar determinados ativos. O produto não é apenas a boleta: ele combina necessidade do cliente, preço, capacidade de execução, risco, documentação e processamento nas seis esteiras.
Buy-side, sell-side e market makers
| Participante | Racional econômico | O que importa |
|---|---|---|
| Buy-side (ex.: gestores de fundos) | Assume posições compradas ou vendidas com base na tese de investimento e no valor que atribui ao ativo. | Valor intrínseco, informação, horizonte e decisão de manter ou reduzir a posição. |
| Sell-side (ex.: bancos e corretoras) | Oferece produtos e serviços ligados ao mercado: intermediação, relatórios, distribuição e liquidez. | Atendimento, acesso ao mercado, execução e serviços oferecidos ao cliente. |
| Corretora | Tipicamente conecta compradores e vendedores e pode receber comissão ou spread pela intermediação. | Encontrar contraparte e executar conforme a ordem e as condições acordadas. |
| Banco como market maker | Compra ou vende por conta própria, apresenta preços de compra e venda e assume risco até conseguir administrar ou proteger a posição. | Preço atual, spread, liquidez, custo de hedge, funding e riscos de mercado e crédito. |
Distinção importante: “buy-side” não quer dizer simplesmente “quem compra ativos”, e “sell-side” não quer dizer apenas “quem vende ativos”. A distinção do áudio está no papel econômico: o buy-side toma liquidez e serviços do mercado para decidir posições; o sell-side fornece serviços, intermediação e liquidez. Um market maker, por sua vez, apresenta preços de compra e venda e pode assumir risco no próprio balanço.
Por que o preço bilateral de um derivativo é diferente?
Em uma ordem negociada em mercado organizado, regras de execução e melhor execução têm um papel específico. Em um derivativo bilateral, o banco forma o preço considerando a exposição que assume: risco de mercado, risco de crédito, dificuldade e custo de hedge e condições de funding. Por isso, o preço não é simplesmente “o preço justo de tela”: normalmente incorpora um spread. Isso não elimina obrigações regulatórias nem autoriza tratamento inadequado do cliente.
Antes de prometer um preço ao cliente, confirme se a mesa consegue precificar o risco, se existe hedge ou contraparte para fazer back-to-back, se há limites e modelos aprovados e como os custos serão refletidos no spread.
Captação (passivo)
| Produto | O que é | Registro | FGC | Pontos-chave |
|---|---|---|---|---|
| Depósito à vista | Conta corrente, sem remuneração | Interno | Sim | Funding mais barato. Compulsório de 21%, não remunerado, e exigibilidades de crédito rural e microcrédito. |
| Poupança | Depósito com rendimento definido em lei | Interno | Sim | Compulsório de 20%; a maior parte direcionada a crédito imobiliário (SBPE). Isenta de IR para PF. |
| CDB / RDB | Depósito a prazo, pré, pós (% CDI) ou IPCA+ | B3 (CDB) | Sim | Compulsório sobre depósitos a prazo de 20% (remunerado). IR regressivo. Pode ter liquidez diária. |
| LCA / LCI | Letras lastreadas em crédito do agronegócio / imobiliário | B3 | Sim | Isentas de IR para PF. Prazo mínimo hoje de 6 meses para as atreladas ao CDI e 12 meses para as atreladas a índice de preços (Res. CMN 5.215/2025, que alterou a 5.118/2024). LCA gera exigibilidade de aplicação em crédito rural. |
| LF (Letra Financeira) | Título de dívida de longo prazo | B3 | Não | Prazo mínimo de 24 meses, sem resgate antecipado. Sem compulsório. A LF subordinada pode compor capital (Nível II ou Capital Complementar). |
| Compromissada | Venda de título com recompra | Selic / B3 | Não | Lastreada em título público ou privado. Muito usada no overnight. |
| Depósito interfinanceiro (DI) | Empréstimo entre bancos | B3 | Não | Origem da Taxa DI (CDI). |
| COE | Certificado de Operações Estruturadas | B3 | Não | Captação com payoff de derivativo embutido. A mesa precisa fazer o hedge da opção vendida ao cliente. |
| Captação externa | Eurobonds, linhas de bancos, repasses | Registro no BC | Não | Gera risco cambial e de cupom cambial, normalmente com hedge. |
Aplicação (ativo)
| Produto | O que é | Registro | Pontos-chave |
|---|---|---|---|
| LFT (Tesouro Selic) | Título público pós-fixado à Selic | Selic | Quase sem risco de juros. Base da carteira de liquidez. |
| LTN (Tesouro Prefixado) | Prefixado, sem cupom, paga R$ 1.000 no vencimento | Selic | Risco pré. |
| NTN-F | Prefixado com cupom semestral de 10% a.a. | Selic | Risco pré com cupons. |
| NTN-B (Tesouro IPCA+) | IPCA + cupom semestral de 6% a.a. | Selic | Risco de cupom de IPCA e inflação. |
| Operações de crédito | Empréstimo, financiamento, CCB, capital de giro | Interno / B3 (CCB) | Risco de crédito, perda esperada, consumo de RWA. Reporte ao SCR. |
| Trade finance | ACC, ACE, pré-pagamento de exportação, cartas de crédito | Câmbio / interno | Crédito + câmbio + cupom cambial. |
| Debêntures, CRI, CRA, notas comerciais | Dívida corporativa ou securitizada | B3 | Risco de crédito do emissor e de spread; marcação a mercado pelas taxas Anbima. |
| CPR | Cédula de Produto Rural | B3 (registro obrigatório) | Física ou financeira; liga crédito ao agro. |
Derivativos
| Produto | Onde | O que faz | Risco de crédito? |
|---|---|---|---|
| DI1 futuro | B3 Bolsa | Aposta/hedge na taxa DI acumulada até o vencimento. PU de R$ 100.000 no vencimento. | Não relevante (contraparte central com margem) |
| DOL / WDO | B3 Bolsa | Futuro de dólar (US$ 50 mil / US$ 10 mil) | Não relevante |
| DAP, DDI, FRC | B3 Bolsa | Cupom de IPCA; cupom cambial; FRA de cupom | Não relevante |
| Swap | B3 Balcão | Troca de indexadores (pré × DI, IPCA × DI, dólar × DI) | Sim |
| NDF (termo de moeda sem entrega) | B3 Balcão | Fixa hoje a taxa de câmbio (ou de commodity) futura; liquida só a diferença em reais | Sim |
| Opções de balcão | B3 Balcão | Calls, puts, barreiras, estruturas (collar, seagull) | Sim, quando o banco é comprador ou em estruturas |
| Derivativos no exterior | ISDA | Swaps, opções e NDFs offshore | Sim, mitigado por CSA |
A transcrição destaca uma particularidade brasileira: o enquadramento legal de derivativos como valores mobiliários faz com que certas regras desenhadas para intermediação de valores mobiliários precisem ser interpretadas considerando as características de derivativos de balcão. O áudio cita discussões e exceções debatidas no âmbito da Anbima. Para uma operação concreta, confira a norma aplicável, a categoria do cliente, o canal de distribuição e as políticas do banco; não presuma que a regra de uma ordem de ações se aplica de modo idêntico a uma NDF bilateral.
Câmbio
O mercado de câmbio brasileiro é regido pela Lei 14.286/2021 (novo marco cambial) e pela Res. BCB 277/2022. Termos: pronto (liquidação em até D+2), interbancário × primário (com cliente), ACC (Adiantamento sobre Contrato de Câmbio, antes do embarque) e ACE (após o embarque, sobre cambiais entregues), PTAX (taxa média do BC, referência de fixing de NDF).
Tributação básica para o cliente
| Prazo da aplicação | IR renda fixa |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| 181 a 360 dias | 20,0% |
| 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15,0% |
Tabela regressiva da Lei 11.033/2004. Há também IOF regressivo sobre o rendimento em resgates com menos de 30 dias. LCI, LCA, poupança, CRI, CRA e debêntures incentivadas são isentas para pessoa física. O banco é o responsável tributário: calcula, retém e recolhe. Esse é um pedaço da esteira operacional que muita gente esquece.
Dizer que um produto “não tem risco de crédito” porque é de bolsa. A operação na B3 não tem risco de crédito relevante porque a câmara é contraparte central e cobra margem. Mas o banco ainda tem risco de crédito do cliente quando é o participante que responde por ele perante a B3 (repasse de margem e ajuste).
Não classifique um produto apenas pelo nome. A orientação cita CDB, depósito à vista, COE, LF e LIG como passivos que podem ter tratamentos diferentes. Para cada instrumento, pergunte: em que lado do balanço entra, qual tratamento contábil/regulatório se aplica e como isso afeta compulsório, tributos, capital e resultado? A resposta concreta depende do instrumento e das regras vigentes.
Teste do módulo
Explique para o comitê
Um cliente pergunta por que a LCA do banco paga 92% do CDI e o CDB paga 102%. Explique pelo lado do banco.
Ver resposta-modelo
Para o investidor PF, a LCA é isenta de IR, então 92% do CDI líquido pode valer mais que 102% tributado. Para o banco, o custo total de cada captação inclui compulsório (o CDB sofre recolhimento sobre depósitos a prazo; a LCA tem regras próprias), contribuição ao FGC e a exigibilidade da LCA de aplicar em crédito rural. A tesouraria compara o custo “all-in” das duas fontes e precifica para que o funding saia equivalente ou mais barato no total.
Esteira 1 de 6 · Registro, liquidação e custódia
Esteira operacional
Tudo que acontece da boleta confirmada em diante: confirmar com o cliente, registrar na B3 ou no Selic, liquidar o dinheiro, guardar e conciliar a posição, processar eventos e informar o cliente.
Pré-teste.
As etapas, na ordem
| Etapa | O que acontece | O que dá errado |
|---|---|---|
| 1. Captura | Trader ou sales digita a boleta no sistema de front (produto, cliente, nocional, taxa, datas, indexador, conta de liquidação). | Erro de digitação (“fat finger”), cliente errado, data-base errada. |
| 2. Validação / enriquecimento | Middle/back confere dados estáticos: cadastro do cliente, limites aprovados, instruções de liquidação (SSI), calendário de dias úteis. | Cliente sem cadastro completo ou sem contrato-mãe assinado. |
| 3. Confirmação | Envio da confirmação ao cliente/contraparte e casamento (matching). Para derivativos de balcão com clientes, a operação se apoia num contrato-mãe: CGD (Contrato Global de Derivativos) no Brasil ou ISDA lá fora. Interbancário de câmbio usa mensagens SWIFT (MT300). | Confirmação pendente: risco legal de o cliente contestar a operação. |
| 4. Registro | Registro obrigatório em entidade autorizada: B3 Balcão (CDB, LF, swaps, NDF, opções flexíveis), Selic (títulos públicos), B3 Bolsa (listados). Base: Lei 12.810/2013 e Res. CMN 4.593/2017. | Registro fora do prazo gera multa e problema regulatório; divergência entre o registro e o sistema interno. |
| 5. Liquidação | Movimentação financeira (e de ativos) na data: com cliente (débito/crédito em conta corrente) e interbancária (STR ou câmara). | Falha de liquidação (fail), falta de saldo em reservas, SSI errada. |
| 6. Custódia e conciliação | Batimento diário entre a posição interna e a da B3/Selic (quantidade, características, saldo). Processamento de eventos: juros, amortização, vencimento, fixing, ajuste diário. | Quebra de conciliação não investigada vira perda operacional. |
| 7. Informação ao cliente | Extrato, nota, informe de rendimentos, retenção e recolhimento de IR/IOF, posição marcada a mercado de derivativos. | Produto classificado na categoria errada no extrato; IR calculado errado. |
Modalidades de liquidação
| Modalidade | Como funciona | Exemplo |
|---|---|---|
| Bruta em tempo real (LBTR) | Cada operação liquida individualmente, na hora, com finalidade. | STR; títulos no Selic; registro na B3 em modalidade bruta |
| Bilateral | As duas partes compensam o que devem uma à outra e liquidam o saldo. | Algumas operações de balcão |
| Multilateral | A câmara compensa todas as obrigações de todos os participantes; cada um paga ou recebe um saldo líquido. | Câmara B3 (bolsa) |
| Sem movimentação financeira | Só registro; o dinheiro corre fora (ex.: conta corrente do cliente no próprio banco). | Algumas captações de clientes do próprio banco |
DVP (entrega contra pagamento): o ativo só é entregue se o dinheiro for pago, eliminando o risco de principal. Ciclos: títulos públicos D+0; ações D+2; câmbio pronto até D+2; futuros com ajuste diário (o resultado do dia liquida em D+1).
Particularidades por produto
- Futuros na B3: não existe “valor” a liquidar no vencimento como num empréstimo; o resultado é pago todo dia via ajuste diário, e a câmara exige margem (garantia) calculada pelo modelo de risco da B3 (CORE).
- NDF e swaps: liquidam só a diferença financeira no vencimento (ou em datas de fluxo). Precisam de fonte de fixing definida em contrato (PTAX, índice B3, preço de bolsa estrangeira).
- Eventos de ciclo de vida: liquidação antecipada (unwind), novação, rolagem, amortização parcial, alteração de garantia. Cada um precisa de fluxo operacional, não só a abertura.
- Câmbio: contratação, registro no sistema do BC, liquidação das duas moedas (reais no Brasil, moeda estrangeira na conta nostro no exterior) e conciliação nostro.
- Confirmação enviada à exportadora e assinada com base no CGD.
- Registro na B3 Balcão em D0 (contrato com contraparte identificada).
- No vencimento, PTAX = 5,3000. Como a cliente vendeu a 5,52 e o dólar está a 5,30, ela ganha (5,52 − 5,30) × 10 milhões = R$ 2,2 milhões, pagos pelo banco.
- Se a PTAX fosse 5,80, a cliente pagaria (5,80 − 5,52) × 10 milhões = R$ 2,8 milhões ao banco. É esse valor que a esteira de crédito precisa estimar antes (PSE).
- Custódia: posição marcada a mercado diariamente e enviada no extrato de derivativos da cliente.
O que um sênior pergunta na aprovação
Falhas dessa esteira viram eventos de risco operacional, que o banco registra numa base de perdas e que entram no cálculo do RWAOPAD. As categorias de Basileia incluem fraude interna, fraude externa, demandas trabalhistas, práticas com clientes e produtos, danos a ativos, interrupção de sistemas e falhas na execução, entrega e gestão de processos, que é onde a maior parte dos erros desta esteira cai.
A esteira não termina quando a boleta é registrada. Além do registro e da liquidação financeira — tanto na conta do cliente quanto no interbancário — a orientação destaca a conciliação da custódia entre sistemas internos e B3/Selic, a categoria correta no extrato do cliente e a formalização contratual. Também vale rastrear de qual sistema vêm o MtM e o accrual exibidos ao cliente.
Teste da esteira
Explique para o comitê
Por que uma operação de futuro de DI na B3 tem uma esteira operacional mais simples que um swap de balcão com cliente?
Ver resposta-modelo
O futuro é padronizado: contrato, vencimentos e liquidação são definidos pela B3, a câmara é contraparte central, a liquidação é multilateral com ajuste diário e não há confirmação bilateral nem contrato-mãe com cliente. O swap de balcão é sob medida: exige CGD com o cliente, confirmação, registro com características específicas, definição de fixing e de eventos, liquidação bilateral ou bruta e extrato para o cliente.
Esteira 2 de 6 · Balanço, tributos e reportes
Esteira contábil e regulatória
Define como a operação entra no balanço. Dessa decisão dependem o resultado, o imposto, o compulsório, o capital consumido e uma lista de reportes ao Banco Central.
Pré-teste.
O plano de contas: Cosif
Bancos usam o Cosif (Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional). Grupos principais: 1 ativo circulante e realizável a longo prazo, 2 permanente, 3 compensação ativa, 4 passivo circulante e exigível a longo prazo, 6 patrimônio líquido, 7 receitas, 8 despesas, 9 compensação passiva. Os balancetes vão ao BC mensalmente (documento 4010).
Onde cada produto cai
| Lado | Exemplos | Como entra |
|---|---|---|
| Passivo | Depósito à vista, poupança, CDB, LCA, LCI, LF, compromissada | Pelo valor captado, mais juros apropriados pela taxa efetiva (custo amortizado). Os juros são despesa de captação, dedutível do IR. |
| Ativo | Empréstimos, títulos públicos, debêntures | Conforme a categoria da Res. CMN 4.966/2021: custo amortizado, VJORA ou VJR. |
| Derivativos | Swaps, NDF, opções, futuros | O nocional não entra no ativo nem no passivo: fica em contas de compensação. Só o valor justo (MtM) entra, no ativo se positivo e no passivo se negativo, com variação no resultado. Futuros: o ajuste diário vai direto para resultado. |
Resolução CMN 4.966: as três categorias
Em vigor desde 1º de janeiro de 2025, a Res. CMN 4.966/2021 (detalhada pela Res. BCB 352/2023) aproximou o padrão contábil dos bancos brasileiros do IFRS 9. Substituiu as antigas categorias da Circular 3.068 (negociação, disponível para venda, mantido até o vencimento) e o modelo de provisão da Res. 2.682 (ratings AA a H).
A classificação de um ativo financeiro depende de duas perguntas:
- Teste SPPJ (somente pagamento de principal e juros): os fluxos do ativo são só principal e juros sobre o principal? Uma debênture CDI+ passa; uma debênture conversível ou um ativo com retorno atrelado a ações, não.
- Modelo de negócios: o banco carrega o ativo para receber os fluxos, para receber os fluxos e vender, ou para negociar?
| Categoria | Quando | Juros e perda esperada | Variação de valor justo |
|---|---|---|---|
| Custo amortizado (CA) | Passa no SPPJ e o modelo é manter para receber | Resultado | Não reconhecida |
| VJORA (valor justo em outros resultados abrangentes, o “OCI”) | Passa no SPPJ e o modelo é receber e vender | Resultado | Patrimônio líquido (ORA), sem passar pelo resultado; vai ao resultado na venda |
| VJR (valor justo no resultado) | Negociação, ou não passa no SPPJ. Derivativos sempre, salvo hedge accounting | Resultado | Resultado, todo dia |
Classificador da 4.966
Responda e veja a categoria e o efeito no resultado e no imposto.
Perda esperada (a antiga PDD)
Pela 4.966, a provisão passou a ser de perda esperada, em três estágios:
- Estágio 1: sem aumento significativo de risco desde a concessão. Provisão de perda esperada para 12 meses.
- Estágio 2: aumento significativo de risco (por exemplo, atraso acima de 30 dias). Provisão para a vida inteira do ativo.
- Estágio 3: ativo com problema de recuperação de crédito (por exemplo, atraso acima de 90 dias). Perda para a vida inteira e, em regra, suspensão do reconhecimento de juros (stop accrual).
A Res. BCB 352 também define pisos de provisão para ativos inadimplidos por faixa de atraso e tipo de carteira.
Tributação: lucro contábil não é lucro tributável
Bancos pagam IRPJ de 15% mais adicional de 10% e CSLL de 20% (alíquota de bancos): cerca de 45% sobre o lucro tributável, além de PIS/Cofins sobre receitas. Duas diferenças que mais aparecem:
- Provisão para perdas: ao constituir provisão, o lucro contábil cai, mas a dedução fiscal segue regra própria. Desde abril de 2025 vale o regime da Lei 14.467/2022: a perda passa a ser dedutível quando o crédito está inadimplido há mais de 90 dias, por um percentual que cresce com os meses de atraso. A diferença temporária gera crédito tributário (ativo fiscal diferido, o “tax asset”).
- Marcação a mercado: ajustes de títulos e derivativos reconhecidos no resultado entram na base de IR/CSLL (art. 35 da Lei 10.637/2002). Ajustes registrados em ORA (VJORA) só são tributados na realização; enquanto isso, o efeito fiscal fica diferido no patrimônio.
O banco compra R$ 100 milhões de uma debênture CDI + 2%. No ano, os juros apropriados somam R$ 12 milhões. O spread de crédito do emissor abre e o papel perde R$ 3 milhões de valor justo.
| Categoria | Resultado | ORA (PL) | IR/CSLL do ano (45%) |
|---|---|---|---|
| Custo amortizado | +12,0 | 0 | 5,4 |
| VJORA | +12,0 | −3,0 | 5,4 |
| VJR | +9,0 | 0 | 4,05 |
Valores em R$ milhões, ignorando perda esperada. Em VJORA, o banco paga imposto sobre os R$ 12 milhões mesmo com o papel valendo menos, porque a perda de valor justo está no PL. Em VJR, a perda reduz o resultado e o imposto. Se o spread fechasse (ganho de R$ 3 milhões), seria o oposto: VJR pagaria mais imposto naquele ano; VJORA não. Era esse o ponto do áudio sobre a carteira “available for sale”.
A contabilidade alimenta o regulatório
Dependendo de onde a operação cai no Cosif, ela puxa vários reportes:
| Reporte | Doc. | O que informa |
|---|---|---|
| Balancete / balanço | 4010 / 4016 | Saldos contábeis mensais e semestrais |
| SCR (Sistema de Informações de Crédito) | 3040 | Operação por operação de crédito por cliente: saldo, atraso, provisão, garantias. É o “Cadastro” de crédito citado no áudio. |
| DLO (Demonstrativo de Limites Operacionais) | 2061 | PR, RWA, índices de capital, imobilização, limites |
| DRM (Demonstrativo de Risco de Mercado) | 2060 | Exposições por fator de risco |
| Pilar 3 | — | Divulgação pública de capital, riscos e liquidez (Res. BCB 54/2020) |
| Riscos sociais, ambientais e climáticos | — | Relatório GRSAC (Res. BCB 139/2021) e política PRSAC (Res. CMN 4.945/2021). Captações verdes/sustentáveis entram aqui. |
| Compulsórios | — | Base de cálculo dos recolhimentos sobre depósitos à vista, a prazo e poupança |
O RWA de crédito parte do saldo contábil da exposição multiplicado por um fator de ponderação (FPR): título público federal em reais tem FPR 0%; empresa, em regra, 100% (menor para algumas exposições garantidas ou de varejo). Derivativos usam o EAD calculado pela metodologia SA-CCR, não o nocional. Classificar errado pode inflar o capital consumido.
A classificação contábil se propaga para outras obrigações. O áudio conecta a classificação no Cosif ao balanço, à tributação, ao compulsório, ao consumo de capital (RWA) e a reportes como Cadoc e reportes de finanças sustentáveis. Para crédito, acompanhe também a PDD/perda esperada e o efeito no resultado.
Use os exemplos de tributação e classificação como ilustração, não como regra universal. A transcrição menciona “Available for Sale” e OCI para explicar que resultado contábil, marcação a mercado e imposto podem não coincidir. A terminologia e o tratamento dependem da norma aplicável, da classificação efetiva e das regras fiscais vigentes; não substitua a classificação atual estudada neste módulo por esse exemplo histórico. Da mesma forma, uma despesa contábil com perda esperada não implica automaticamente dedução fiscal imediata.
Teste da esteira
Explique para o comitê
A tesouraria quer comprar uma carteira de debêntures para revender em seis meses, mas pede que fique em VJORA “para não ter volatilidade no resultado”. O que você responde?
Ver resposta-modelo
A categoria não é escolha de conveniência: ela segue o modelo de negócios documentado. Se a intenção é negociar no curto prazo, o modelo é de negociação e a categoria é VJR. VJORA exige um modelo de “receber e vender” coerente com o histórico de vendas da carteira. Classificar por conveniência gera problema com auditoria e com o BC. Se a preocupação é volatilidade, a solução está na gestão de risco (hedge do spread ou do juro), não na contabilidade.
Esteira 3 de 6 · Juros, câmbio, ações, commodities
Esteira de risco de mercado
Quase toda operação com cliente cria uma exposição a algum fator de mercado. A tesouraria precisa medir essa exposição, mantê-la dentro dos limites e fazer o hedge. É a esteira que mais vezes decide se um produto novo existe ou não.
Pré-teste.
Fatores de risco
| Fator | Gera exposição | Hedge típico |
|---|---|---|
| Juros pré (Pré × DI) | CDB pré, LTN, NTN-F, crédito pré, swap pré × DI | DI1 futuro, swap |
| Cupom de IPCA | NTN-B, CDB IPCA+, debênture IPCA+ | DAP, NTN-B, swap IPCA × DI |
| Câmbio | NDF, câmbio pronto, ACC, captação externa | DOL/WDO, NDF interbancária, pronto |
| Cupom cambial | Qualquer posição em dólar com prazo no Brasil (NDF, ACC, swap dólar × DI) | DDI/FRC, swap cambial |
| Ações / índices | COE de bolsa, opções de ações | Futuro de índice, ações, opções |
| Commodities | NDF de açúcar, café, milho, petróleo | Futuros na ICE/CME/B3, back-to-back com banco |
| Volatilidade | Qualquer opção | Opções (o hedge de vega só se faz com opção) |
| Spread de crédito | Debêntures e crédito marcados a mercado | Difícil no Brasil; limite e diversificação |
Marcação a mercado (MtM)
Valor justo = valor presente dos fluxos futuros descontados pelas curvas de mercado do dia. A fonte das curvas e preços precisa ser independente do trader. A área de controle faz a IPV (verificação independente de preços) e, quando o preço é pouco observável, constitui reservas (bid/offer, risco de modelo).
DV01: a métrica do dia a dia
DV01 (dollar value of one basis point, também chamado PV01 ou BPV) é quanto a posição ganha ou perde se a taxa andar 1 ponto-base (0,01%). Limites de mesa de juros são dados em DV01, por fator e muitas vezes por vértice (prazo) da curva.
Para um título ou contrato pré: PU = Valor de face / (1 + taxa)du/252, e DV01 ≈ PU(taxa) − PU(taxa + 0,01%).
No DI1 futuro, a B3 negocia em taxa, mas o contrato é um PU. Quem compra taxa (“tomado”, vendido em PU) ganha quando a taxa sobe. Quem vende taxa (“dado”, comprado em PU) ganha quando a taxa cai. Cada banco reporta o sinal do DV01 de um jeito. Diante de “DV01 de +20 mil”, a primeira pergunta é sempre: ganha com alta ou com queda da taxa?
Calculadora de DV01 do DI1 futuro
Contrato com PU de R$ 100.000 no vencimento.
- O banco emite R$ 100 milhões de CDB pré a 14% por 1 ano (252 du). Valor presente do passivo ≈ R$ 100 milhões.
- O banco deve um valor fixo no vencimento. Se a taxa subir, o valor presente dessa dívida cai e o banco ganha; se cair, ele perde. A exposição equivale a estar tomado (comprado em taxa).
- DV01 de R$ 100 milhões de valor presente a 1 ano: um contrato de PU 87.719 tem DV01 de R$ 7,694, então 100.000.000 × 7,694 / 87.719 ≈ R$ 8,8 mil por bp.
- Para neutralizar, a mesa precisa de uma posição que ganhe com queda de taxa: dar taxa (vender taxa) no DI1. Número de contratos ≈ 8.771 / 7,694 ≈ 1.140 contratos dados no vencimento de 1 ano.
- Alternativa: swap pré × DI, em que o banco recebe pré e paga DI. Assim o custo do CDB vira um spread sobre o CDI.
Lógica geral: identifique o fator, calcule a sensibilidade, encontre o instrumento com sensibilidade oposta e confira o casamento de prazos (vértices). Hedge feito num vencimento diferente deixa risco de inclinação da curva.
Outras métricas
| Métrica | O que mede | Uso |
|---|---|---|
| Duration modificada | Variação % do preço para 1 p.p. de variação da taxa | Comparar sensibilidade de títulos |
| Convexidade | Curvatura: a duration muda conforme a taxa anda | Choques grandes; opções embutidas |
| Gregas | Delta (preço do ativo), gama (variação do delta), vega (volatilidade), theta (tempo), rô (juros) | Livros de opções |
| VaR | Perda máxima esperada num horizonte e com uma confiança (ex.: 1 dia, 99%) | Limite agregado de risco |
| Expected Shortfall | Perda média nos cenários além do VaR (ex.: 97,5%) | Captura cauda; base da nova regra de capital (FRTB) |
| Estresse | Perda em cenários extremos (históricos ou hipotéticos) | Limite de estresse; testes do BC |
| Stop loss | Perda acumulada máxima permitida | Força a redução de posição |
VaR paramétrico: VaR = z × σ × √h × valor da posição. Ex.: posição de R$ 10 milhões em dólar, volatilidade diária de 1%, 99% (z ≈ 2,33), 1 dia → VaR ≈ R$ 233 mil. Também existem VaR histórico (reprecifica a carteira com variações passadas) e Monte Carlo (cenários simulados).
Carteira de negociação × carteira bancária
- Carteira de negociação (trading book): posições com intenção de negociar ou de hedge de outras posições de negociação. Marcadas a mercado, sujeitas ao RWA de mercado.
- Carteira bancária (banking book): o restante: crédito, captações, títulos para carregar. O risco de juros dela é o IRRBB, medido por ΔEVE (variação do valor econômico) e ΔNII (variação da margem financeira).
Capital de risco de mercado
Hoje o RWAMPAD soma parcelas por fator: RWAJUR1 (pré), RWAJUR2 (cupom cambial), RWAJUR3 (cupom de índices de preço), RWAJUR4 (cupom de juros), RWAACS (ações), RWACOM (commodities) e RWACAM (câmbio). A partir de 1º de janeiro de 2027, os bancos S1 a S3 passam à nova abordagem padronizada baseada em sensibilidades, alinhada ao FRTB de Basileia (Res. CMN 5.207/2025 e Res. BCB 470/2025).
Por que o risco de mercado decide o produto
Pegue uma NDF de açúcar. Operacionalmente é igual a qualquer NDF: registro na B3, confirmação, liquidação por diferença. Contabilmente também: derivativo a valor justo. Mas o risco é específico do ativo-objeto: a mesa precisa de curva de açúcar, de câmbio para converter, de acesso a futuros na ICE (ou de um banco para fazer back-to-back), de limite de commodity e de modelo aprovado. Sem isso, não existe produto.
O que um sênior pergunta na aprovação
A exposição depende do fator de risco específico. Uma NDF de açúcar pode ser simples de registrar operacionalmente e semelhante a outras NDFs na contabilidade, mas o hedge depende do underlying: açúcar não é hedgeado da mesma forma que dólar ou juros. Antes de lançar o produto, confirme com trading se existe hedge ou contraparte back-to-back viável e com risco de mercado se há modelo para medir a exposição e definir limites.
Declare sempre a convenção de sinal usada pelo sistema. A transcrição usa um exemplo de DV em dólares por ponto-base para explicar ganhos e perdas quando a taxa muda. Na prática, o sinal depende da definição de DV01 e da posição; não memorize “positivo” ou “negativo” isoladamente. Saiba qual movimento de taxa gera ganho ou perda para a posição específica e confirme unidade, moeda e fator de risco.
Teste da esteira
Explique para o comitê
A área comercial quer vender a clientes uma opção de compra de dólar com barreira. A mesa de câmbio diz que consegue fazer o delta. Por que isso não basta?
Ver resposta-modelo
Ao vender a opção, o banco fica vendido em volatilidade (vega negativo) e, perto da barreira, com gama e delta que mudam bruscamente. O hedge de delta com futuro de dólar não protege contra vega nem contra o salto na barreira. É preciso: modelo de precificação de barreira validado, superfície de volatilidade, limites de vega e gama, capacidade de comprar opções para hedge (ou back-to-back) e uma regra para quando o preço estiver perto da barreira.
Esteira 4 de 6 · Contraparte, garantias e limites
Esteira de risco de crédito
Quanto o banco pode perder se o cliente não pagar. Não é preciso ser especialista em crédito para estruturar produtos, mas é preciso entender a lógica, como a exposição é calculada e se os sistemas conseguem acompanhá-la.
Pré-teste.
Quem tem e quem não tem risco de crédito
| Operação | Risco de crédito? | Por quê |
|---|---|---|
| Futuro de DI na B3 | Não relevante | Contraparte central, margem e ajuste diário |
| Título público federal | Não (em reais) | Soberano emitindo na própria moeda; FPR 0% |
| Empréstimo, debênture, CCB | Sim | Exposição direta ao devedor |
| Swap, NDF, opção de balcão | Sim | Exposição potencial: o contrato pode ficar a favor do banco e o cliente não pagar |
| Trade finance (ACC, ACE) | Sim | Adiantamento ao exportador |
Volatilidade não é risco de crédito
No risco de mercado, mais volatilidade significa mais risco. No crédito, não: um cliente que nunca paga tem preço “parado” e risco enorme. O risco de crédito vem da capacidade financeira do cliente: geração de caixa, alavancagem (dívida líquida/EBITDA), setor (uma empresa de saneamento com receita regulada é diferente de um varejista cíclico), governança e acionista. Cada banco tem modelos internos de rating para traduzir isso em probabilidade de default.
A fórmula de perda
Perda esperada (PE) = PD × LGD × EAD
- PD: probabilidade de default no horizonte (ex.: 12 meses), derivada do rating.
- LGD: perda dado o default, em % da exposição. Depende das garantias e da senioridade.
- EAD: exposição no momento do default.
A perda esperada é custo do negócio e vai para o preço e para a provisão. A perda inesperada é coberta por capital.
Garantias (mitigadores)
Exposição líquida = exposição − valor da garantia × (1 − haircut). O haircut reflete o quanto a garantia pode perder de valor e o custo de executá-la. Garantias líquidas (dinheiro, título público) contam quase integralmente; um imóvel conta bem menos.
- Reais: alienação fiduciária (imóvel, veículo, ações), cessão fiduciária de recebíveis ou aplicações, hipoteca, penhor.
- Fidejussórias: aval, fiança. Dependem do crédito de outra pessoa.
- Para derivativos: margem/colateral (CSA no ISDA; cláusulas de chamada de margem no CGD) e netting (compensação de todos os contratos com o mesmo cliente sob o contrato-mãe).
Exposição e perda esperada de um empréstimo
Simplificação didática: LGD = exposição líquida / exposição. Bancos usam modelos de LGD com custos de recuperação e prazos.
Derivativos: PSE
Uma NDF nasce com MtM perto de zero (só o spread). Mesmo assim, o banco precisa de limite de crédito para o cliente, porque não sabe quanto o contrato vai valer no futuro. A métrica é a PSE (pre-settlement exposure), também chamada PFE (potential future exposure):
- Simula-se o fator de risco (ex.: dólar) em milhares de cenários até o vencimento (Monte Carlo).
- Em cada cenário, calcula-se quanto o cliente deveria ao banco.
- Pega-se um percentil alto (ex.: 95%) da distribuição. Esse é o valor que o limite de crédito precisa comportar.
Aprovações para derivativos vêm em PSE: “limite de R$ 200 milhões de PSE para até 1 ano”, e não “R$ 100 milhões de empréstimo”.
PSLE (pre-settlement loan equivalent) ou EPE (expected positive exposure): a média das exposições positivas nos cenários, uma espécie de “empréstimo equivalente”. É menos usada para limite e mais para precificação e capital.
Simulador de PSE de uma NDF de dólar
Monte Carlo com 10.000 cenários do dólar no vencimento (lognormal, sem drift).
Na prática, a PSE é calculada ao longo do tempo (perfil de exposição) e o limite usa o pico. Volatilidade e prazo maiores aumentam a PSE; garantias e netting a reduzem.
Do risco ao preço: XVA e capital
- CVA (credit valuation adjustment): valor de mercado do risco de crédito da contraparte num derivativo. Muitos bancos cobram o CVA de quem fecha a operação, como um “seguro” pago a uma mesa de XVA que passa a gerir esse risco.
- DVA (o próprio risco do banco), FVA (custo de funding de colateral), KVA (custo de capital), MVA (custo da margem inicial).
- EAD de derivativos para capital: metodologia SA-CCR, EAD = 1,4 × (custo de reposição + PFE regulatória).
- Risco de correlação adversa (wrong-way risk): quando a exposição cresce justamente quando o cliente piora. Ex.: importador muito endividado em dólar comprando NDF de venda de dólar ao banco.
Regras que limitam e informam
- Concentração: exposição a um cliente ou grupo econômico limitada a 25% do Nível I (Res. CMN 4.677/2018).
- SCR: operações de crédito reportadas cliente a cliente (Doc. 3040).
- Perda esperada contábil: estágios da Res. CMN 4.966/2021 (ver esteira contábil).
- Alçadas: limites aprovados em comitês de crédito conforme valor e rating; revisão periódica.
O que importa para quem estrutura o produto
Para derivativos, o nocional não é a exposição de crédito. O áudio apresenta PSE (Pre-Settlement Exposure) como estimativa de exposição futura: modelos podem simular cenários de mercado e medir a exposição em um percentil definido pelo banco. O percentil, as hipóteses e a metodologia variam por instituição; o exemplo de 95º percentil é específico da explicação, não uma regra universal. O PSLE é citado como outra métrica possível.
Não basta calcular o risco: o fluxo de sistemas precisa funcionar. Confirme se a operação chega ao sistema que calcula e monitora o risco de crédito, se as garantias/mitigadores são reconhecidos pelo sistema e se os limites aprovados correspondem à métrica usada. A orientação também separa risco de mercado e risco de crédito: podem usar modelos e sistemas diferentes mesmo quando partem da mesma operação.
Evite afirmar que risco de crédito é literalmente zero em qualquer operação de bolsa. O áudio usa a contraparte central e a margem diária para contrastar operações de bolsa com transações bilaterais. Para estruturar um produto, a distinção prática é que o risco é mitigado e gerido de forma diferente; não transforme essa simplificação numa afirmação de ausência absoluta de risco de contraparte ou de infraestrutura.
Teste da esteira
Explique para o comitê
Por que uma NDF de US$ 100 milhões com um cliente consome bem menos limite que um empréstimo de valor equivalente em reais?
Ver resposta-modelo
No empréstimo, o banco entrega o principal e todo ele está em risco. Na NDF, só a diferença entre a taxa contratada e a taxa futura é liquidada; o principal nunca troca de mãos. A exposição depende de quanto o dólar pode andar contra o cliente, que, no percentil de 95% para um ano, é uma fração do nocional (algo como 20% a 30% com volatilidade de 15%). Por isso derivativos costumam ser mais eficientes em consumo de limite, embora tragam risco de cauda e de correlação adversa.
Esteira 5 de 6 · Finance, controle de resultado
Esteira gerencial e P&L
Calcula o resultado pelo qual cada mesa e cada área comercial é avaliada e remunerada. Está ligada a todas as outras esteiras, principalmente à de risco de mercado.
Pré-teste.
Por que gerencial e contábil são diferentes
O resultado contábil diz quanto o banco ganhou. O gerencial diz quem gerou esse resultado. Para separar, o banco cria boletas gerenciais (operações internas entre áreas): funding interno, NDF ou swap espelho entre sales e trading, cobrança de CVA. Essas boletas se anulam no consolidado: a soma dos P&Ls gerenciais tem de bater com o contábil, senão o banco paga bônus sobre um lucro que não existe.
Funding: o preço interno do dinheiro (FTP)
O FTP (funds transfer pricing) é a taxa que a tesouraria ou o ALM cobra das áreas que usam recursos, e paga às que captam. Reflete o custo de captar no mesmo prazo e o prêmio de liquidez por deixar dinheiro preso.
P&L gerencial de um empréstimo
Spread de sales em câmbio
- A mesa de trading passa ao sales a taxa de 5,00.
- O sales vende o dólar ao cliente a 5,05. Os 5 centavos são o sales credit: 0,05 × 10 milhões = R$ 500 mil para o P&L de vendas.
- A mesa, agora vendida em dólar a 5,00 (pela boleta gerencial), compra no mercado a 4,97. Resultado da mesa: 0,03 × 10 milhões = R$ 300 mil.
- Contábil: o banco vendeu a 5,05 e comprou a 4,97 → R$ 800 mil. A soma dos gerenciais (500 + 300) bate com o contábil.
Se a mesa tivesse comprado a 5,02, o sales continuaria com R$ 500 mil e a mesa teria prejuízo de R$ 200 mil. O sales é remunerado pelo relacionamento e pelo preço ao cliente; a mesa, pela execução e gestão do risco.
Derivativos: duas formas de reconhecer o P&L
| Modelo | Como funciona | Efeito |
|---|---|---|
| Na cabeça (day-one) | No dia do fechamento, o sales reconhece o MtM da operação com o cliente menos o custo de fechá-la no mercado (via derivativo espelho com a mesa) e menos o CVA cobrado pela mesa de XVA. | Resultado imediato; o risco de mercado fica com a mesa e o de crédito com a mesa de XVA. |
| Accrual | O sales fecha com o cliente a 5,05 e com a mesa um espelho a 5,00. A diferença é apropriada mês a mês até o vencimento. | Resultado diluído; reduz incentivo a fechar operações longas só pelo resultado imediato. |
No contábil, o derivativo está a valor justo; o gerencial redistribui esse resultado entre sales, trading e XVA.
Outras peças da esteira
- P&L explain (atribuição): decompor o resultado do dia em carrego (carry/theta), efeito de mercado (delta, gama, vega, curva), operações novas e não explicado. Um “não explicado” grande indica erro de booking, de modelo ou de dados.
- IPV e reservas: o controle de produtos verifica de forma independente os preços usados pela mesa e constitui reservas para posições pouco líquidas ou dependentes de modelo.
- Conciliação gerencial × contábil: rotina mensal; diferenças precisam de explicação documentada.
- Remuneração: o P&L ajustado alimenta o bônus. A remuneração variável de administradores de instituições financeiras segue regras de diferimento e de ajuste a risco (Res. CMN 3.921/2010).
Como cada banco organiza
Não existe desenho único. Os áudios citam três: em um banco, a esteira gerencial segue caminho próprio (chama as calculadoras de MtM e só no fim bate com o contábil); em outro, gerencial e contábil ficam na mesma área; em um terceiro, o gerencial parte do MtM calculado pelo sistema de risco de mercado. O ideal teórico são esteiras independentes chegando ao mesmo número. Na prática, elas compartilham dados, e quando duas fazem “a mesma conta” em sistemas diferentes (como risco de mercado e crédito com modelos distintos), os números divergem.
O P&L gerencial separa receita bruta de contribuição econômica. No exemplo de empréstimo, uma taxa ao cliente de DI + 5% menos funding interno de DI + 1% deixa um spread gerencial de 4% antes de outros custos relevantes. No exemplo de câmbio, se a mesa cota 5,00 e Sales vende a 5,05, a diferença de 0,05 é o spread de Sales. São exemplos didáticos: na prática, a apuração considera convenções, prazo, custos e políticas do banco.
Reconhecimento na cabeça e accrual são modelos diferentes. A transcrição contrasta reconhecimento do P&L na origem (“na cabeça”) com apropriação ao longo do tempo (accrual). Também cita CVA como custo associado ao risco de crédito e boletas gerenciais de hedge/funding para atribuir o resultado. Não presuma que o método de uma instituição se aplica a outra; valide a política local e reconcilie o gerencial com o contábil.
Teste da esteira
Explique para o comitê
Um banker fecha um empréstimo a CDI + 5% e quer ser avaliado pelos 5%. Explique por que o P&L dele é menor.
Ver resposta-modelo
Os 5% sobre o CDI são receita do banco, não mérito integral do banker. O banco precisa captar os recursos pelo prazo do empréstimo, o que custa mais que o CDI (prêmio de liquidez e prazo). A tesouraria cobra esse custo via FTP, por exemplo CDI + 1%. O P&L do banker é o spread de 4%, e numa visão mais completa ainda se descontam a perda esperada e o custo do capital consumido.
Esteira 6 de 6 · Trade surveillance
Esteira de compliance
Não processa a operação nem calcula P&L. Verifica se quem operou podia operar, se o preço foi justo e se não houve abuso de mercado. Em geral atua depois do fato: no dia seguinte ou meses depois.
Pré-teste.
Os controles
| Controle | O que verifica |
|---|---|
| Mandato da mesa | Produtos, mercados, prazos, contrapartes e limites que cada mesa e cada trader podem operar. Operação fora do mandato é violação, mesmo que dê lucro. |
| Preço fora de mercado | Taxa da operação comparada a uma faixa (spread mínimo e máximo) em relação ao preço de referência. Spread muito alto pode lesar o cliente; muito baixo pode esconder transferência de resultado. |
| Gravação e comunicações | Ligações gravadas e mensagens monitoradas, usadas para reconstruir a negociação. |
| Abuso de mercado | Spoofing e layering (ordens para enganar o livro), wash trade, front running, marking the close, uso de informação privilegiada. |
| Barreiras de informação | Separação entre áreas com informação privilegiada (banco de investimento) e mesas; listas restrita e de observação. |
| Investimentos pessoais | Regras para operações dos funcionários em nome próprio. |
| Cancelamentos e alterações | Boletas canceladas ou corrigidas com frequência, ou depois do horário, podem esconder erro ou fraude. |
| Suitability | Produto adequado ao perfil do cliente (Res. CVM 30/2021). |
| PLD/FT | Prevenção à lavagem de dinheiro: conheça seu cliente, monitoramento e comunicação ao Coaf (Lei 9.613/1998, Circular BCB 3.978/2020). |
Base legal
- Lei 6.385/1976: crimes contra o mercado de capitais. Art. 27-C: manipulação de mercado. Art. 27-D: uso indevido de informação privilegiada (insider trading).
- Res. CVM 62/2022: define e proíbe práticas de manipulação, criação de condições artificiais, operações fraudulentas e práticas não equitativas.
- Res. CVM 35/2021: regras para intermediários, incluindo melhor execução de ordens.
- Res. CMN 4.595/2017: política de conformidade (compliance) das instituições.
- Lei 13.506/2017: processo administrativo sancionador no BC e na CVM, com multas elevadas.
- Lei 7.492/1986: crimes contra o sistema financeiro nacional.
- Uma NDF de 1 ano foi fechada com um cliente a 5,62 quando o termo de mercado era 5,52. A faixa permitida de spread para aquele segmento de cliente é de até 3 centavos.
- O sistema de surveillance gera um alerta no D+1.
- Compliance pede ao front a justificativa, ouve a gravação e checa o histórico do cliente.
- Desfechos possíveis: justificativa aceita (operação com estrutura diferente, cliente informado do preço), ressarcimento ao cliente, advertência, ajuste de bônus, comunicação a reguladores em caso de indício de irregularidade.
Para quem cria produtos
O controle também verifica evidências e condições de negociação. Além de investigar possível informação privilegiada, a orientação destaca mandato da mesa e do trader, preço dentro da faixa de mercado/spread autorizado e existência de gravação ou documentação. O controle pode ser posterior à operação — no dia seguinte ou semanas depois —, por isso a trilha de evidências precisa ser preservada desde a negociação.
Teste da esteira
Explique para o comitê
Um trader fez uma operação lucrativa de opções de commodities, mas o mandato da mesa dele cobre só juros e câmbio. Ele argumenta que deu lucro. Qual a posição de compliance?
Ver resposta-modelo
É violação de mandato independentemente do resultado. O mandato existe porque o banco só aprova riscos que consegue medir, controlar e capitalizar: se a mesa não tem limite, modelo e controles para commodities, o risco ficou fora de qualquer supervisão. O desfecho típico: encerrar a posição, registrar a violação, comunicar à governança de risco e aplicar consequências (inclusive sobre o bônus). Lucro com risco não autorizado é tratado como sorte, não como mérito.
Caso integrado · todas as esteiras
Lançando uma NDF de açúcar
Uma usina exportadora quer travar em reais o preço de parte da safra de açúcar do próximo ano. O banco não tem esse produto. Você leva o caso ao comitê de novos produtos. Responda cada etapa antes de abrir a resposta.
A usina vende 50 mil toneladas de açúcar por ano. Quer uma NDF de 12 meses em que recebe um preço fixo em R$/t e paga o preço de mercado convertido para reais (referência: futuro de açúcar nº 11 na ICE, em centavos de dólar por libra-peso, convertido pela PTAX). Liquidação financeira em reais pela diferença.
1 · Operacional
O que precisa existir para registrar, confirmar e liquidar?
Resposta
- Registro como derivativo de balcão na B3 com ativo-objeto commodity (termo/NDF de mercadoria) e fonte de fixing definida.
- CGD assinado com a usina, com anexo das características (média de preços? último preço? conversão por qual PTAX e de que dia?).
- Sistema de front que capture preço em USc/lb, conversão de unidades (1 tonelada ≈ 2.204,62 libras) e câmbio.
- Processo de fixing, cálculo da liquidação, débito/crédito em conta da usina e extrato com MtM.
2 · Contábil e regulatório
Como entra no balanço e que capital consome?
Resposta
- Derivativo a valor justo no resultado (VJR); nocional em compensação; MtM no ativo ou passivo.
- Hedge accounting é decisão da usina na contabilidade dela, não do banco; para o banco, o hedge na ICE também é derivativo a VJR, então os resultados se compensam no resultado.
- Capital: RWA de mercado (commodities e câmbio) e RWA de crédito da contraparte (EAD por SA-CCR).
- Reporte: posição no DRM; exposição do cliente nos controles de crédito.
3 · Risco de mercado
Quais fatores? Como a mesa faz o hedge?
Resposta
- Fatores: preço do açúcar em dólar, câmbio USD/BRL, cupom cambial e juro pré (desconto), além de risco de base se o fixing for média.
- A usina recebe o preço fixo e paga o preço de mercado. Logo, o banco paga fixo e recebe mercado: fica comprado em açúcar e, como o preço de mercado é convertido pela PTAX, também comprado em dólar.
- Hedge: vender futuros de açúcar na ICE (via corretora no exterior, com margem em dólar) e vender dólar a termo (DOL ou NDF) para neutralizar o câmbio. Alternativa: back-to-back com um banco internacional.
- Precisa de modelo e curva de açúcar no sistema, limite de delta de commodity e de câmbio, e estresse de safra/clima.
4 · Risco de crédito
Qual a exposição à usina?
Resposta
- Se o preço do açúcar em reais subir, a usina deve ao banco a diferença. A PSE depende da volatilidade combinada de açúcar e câmbio (bem maior que a do dólar sozinho: açúcar costuma ter volatilidade de 25% a 35% ao ano).
- Ponto favorável: a usina tem o açúcar físico. Quando ela perde na NDF, ganha vendendo a safra mais cara (correlação a favor, não adversa), salvo quebra de safra.
- Mitigadores: chamada de margem, cessão fiduciária de recebíveis de exportação, limite de PSE aprovado em comitê.
- O sistema de crédito precisa receber a operação e calcular a PSE do açúcar. Se o modelo só cobre câmbio, há trabalho de modelagem antes de lançar.
5 · Gerencial
Como dividir o resultado?
Resposta
- Boleta espelho entre sales e a mesa de commodities ao preço “de mesa”; a diferença para o preço ao cliente é o sales credit.
- Cobrança de CVA pela mesa de XVA (ou de uma taxa de crédito) e custo de funding das margens na ICE (FVA/MVA).
- A mesa fica com o resultado de execução do hedge. Reconhecimento na cabeça ou por accrual, conforme a política do banco.
6 · Compliance
O que verificar?
Resposta
- Mandato: a mesa pode operar commodities agrícolas e acessar a ICE?
- Suitability: a usina é investidor profissional ou qualificado? A operação é hedge (proporcional à produção) ou especulação?
- Preço de referência e faixa de spread para o surveillance.
- Negociação em canal gravado; material de riscos entregue ao cliente.
Operacional e contábil se resolvem com ajustes (o produto é “uma NDF”). Os bloqueadores reais estão em risco de mercado (modelo de açúcar, acesso à ICE, limites) e em crédito (PSE com volatilidade de açúcar no sistema). Esse é o padrão: o produto vive ou morre na capacidade de medir e fazer o hedge do risco.
Para cada produto novo, percorra as seis perguntas sem pular etapas: 1) Como confirmar, registrar, liquidar e refletir no extrato? 2) Como entra no balanço e quais tributos, reportes e capital afeta? 3) Quais fatores de mercado surgem e como serão hedgeados? 4) Qual é a exposição de crédito, quais mitigadores existem e o sistema os acompanha? 5) Como o resultado será distribuído entre Sales, Trading e áreas de suporte? 6) A mesa tem mandato, o preço é justo e a documentação está preservada?
Teste do caso (questões intercaladas)
Revisão espaçada
Flashcards
Tente lembrar a resposta antes de virar. Seja honesto na avaliação: “Errei” faz o cartão voltar amanhã; cada “Acertei” dobra, mais ou menos, o intervalo (1, 3, 7, 14 e 30 dias).
Revisão intercalada
Simulado final
Doze questões sorteadas de todas as esteiras, misturadas. A mistura é proposital: no trabalho real, ninguém avisa de qual esteira é o problema.
Consulta
Glossário
Siglas e jargão de mesa. Use como teste: leia o termo, explique em voz alta, depois confira.